A
interdisciplinaridade é uma das principais características
da pesquisadora Elena Godoi. Isso fica notório por
meio dos temas pelos quais ela se interessa: linguagem e cultura,
semântica, pragmática, geopolíticas lingüísticas
e ensino de línguas estrangeiras com ênfase no
espanhol. Com um extenso e diversificado currículo,
a associada da Abrapcorp é graduada em Letras Espanhol/Inglês
pela Universidade Pedagógica de São Petersburgo,
Mestre em Letras pela Universidade Federal do Paraná,
Doutora em Lingüística e Pós-Doutora pela
Universidade Estadual de Campinas.
Elena faz parte do quadro de
docentes da Universidade Federal do Paraná, atuando
no departamento de Departamento de Letras Estrangeiras Modernas
como professora de graduação e de pós-graduação.
A pesquisadora também lidera o Grupo de Pesquisa “Linguagem
e Cultura”/UFPR/CNPq, que possui como diferencial a
interdisciplinaridade entre a linguagem e as diversas áreas
e campos de conhecimento. Por meio do Grupo de Pesquisa, a
professora Elena Godoi orienta alunos de pós-graduação
que se interessam pelos campos da Lingüística
e Comunicação. O Informativo Abrapcorp conversou
com Elena para saber qual sua opinião sobre o relacionamento
desses campos.
Abrapcorp:
A Lingüística e a Comunicação
possuem uma forte ligação em alguns pontos.
Considerando essa questão, sob o seu ponto de vista,
como os estudos lingüísticos entendem a Comunicação?
Elena
Godoi: Vejo essa pergunta como a principal: as
outras são conseqüências. Não vou
nem tentar resumir quase um século da “existência
oficial” da Lingüística e séculos
e séculos de reflexões mais diversas sobre
a linguagem. O que me interessa e me atrai, pessoalmente,
é que paralelamente com as correntes estruturalistas
da Lingüística, que acompanharam com sucesso
o pensamento filosófico positivista do século
XX, foram surgindo e ressurgindo outros pontos de vista
sobre a linguagem, aqueles que a vêem como inerente
ao “homo loquens” em todas as suas manifestações.
Nesse sentido, é interessante pensar a Pragmática
como uma ‘Lingüística mais abrangente’,
que se preocupa não só com a estrutura da
linguagem e seu funcionamento, mas sobretudo com a linguagem
do e no ser humano. Quer dizer, para mim, o ser humano é
inseparável de e impensável sem os seus pensamentos,
emoções, crenças, valores, organizações
sociais de vários tipos, história, etc., o
que se poderia chamar e estudar como contextos (*internos
e externos) das manifestações verbais humanas
(internas e/ou exteriorizadas) e da sua própria existência.
Se entendo a Pragmática dessa maneira, então
a Comunicação (social, organizacional, etc.)
entra naturalmente no escopo de seu estudo.
Abrapcorp:
O seu currículo é bastante extenso e diversificado.
Entre suas pesquisas e publicações, mesmo
não sendo a maioria, muitos trabalhos estão
relacionados aos campos de Comunicação Organizacional
e de Relações Públicas. A partir de
que momento e como iniciou esse interesse por esses campos
de conhecimento?
Elena
Godoy: Nem sempre é fácil detectar
o quê nos leva a enveredarmos por uns caminhos e não
pelos outros. Percebe-se pelo meu currículo que andei
por muitos e muitos caminhos. Li textos e conheci pesquisadores
de várias áreas, não só da Lingüística.
Também tive os meus “namoros” com diversos
assuntos e diversas teorias, da Lingüística
ou não. Talvez tenha sido tudo isso que me levou
a pensar, nestes últimos anos, em uma ‘Lingüística
mais abrangente’, quem sabe, mais condizente com a
Teoria da Complexidade, que é a minha última
paixão.
Abrapcorp:
Considerando a importância da Lingüística
para a Comunicação Organizacional e para as
Relações Públicas, de que forma é
possível manter e até mesmo aumentar o intercâmbio
de informações entre esses campos de conhecimento?
Elena
Godoy: Creio que o “maior pecado” -
e o mais comum entre os pesquisadores de qualquer área
do conhecimento humano - é exatamente o “fechamento”,
a não-aceitação das idéias de
outras áreas, de outros campos de conhecimento. Se
vê muito, infelizmente, que, mesmo existindo esses
intercâmbios de informações, há
pesquisadores que, por uma razão ou outra, se mantêm
na “clausura” habitual da sua área. O
resultado dessa postura é não só a
inexistência de um verdadeiro diálogo entre
diversos campos de conhecimento, que muitas vezes se torna
realmente impossível (como nos ensina a epistemologia
da ciência), mas também a dificuldade do próprio
desenvolvimento das áreas.