III Congresso Brasileiro Científico de
Comunicação Organizacional e de Relações Públicas

III Abrapcorp 2009
Comunicação, Humanização e Organizações

28, 29 e 30 de abril, 2009
ECA-USP - São Paulo, SP
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Comunicação, Humanização e Organizações

Relevância do Tema do III Abrapcorp 2009


Histórico

Passados 75 anos dos primeiros resultados dos estudos desenvolvidos por Elton Mayo em Hawthorne, considerados fundamentais para o resgate da dimensão humana no contexto organizacional, presenciamos, hoje, outro momento de passagem.

Aqueles estudos da Escola de Relações Humanas contribuíram, entre outros aspectos, para superar a percepção do homo economicus (como síntese da natureza humana) e substituí-la pela do homo social, na qual o homem é apresentado como um ser total, cujo comportamento não pode ser reduzido a esquemas simples, reducionistas e mecanicistas e que possui necessidades de segurança, afeto, aprovação social, prestígio e auto-realização.

Na esteira dessas contribuições, durante décadas, organizações de todos os portes implantaram sistemas de incentivo à capacitação, sistemas de saúde e de previdência, planos de carreira, processos de salvaguardas e de proteção dos funcionários ao autoritarismo gerencial e também investiram na integração dos seus trabalhadores no ambiente do trabalho e mesmo externamente, ao incentivarem a criação de clubes, por exemplo.

Contudo, muitos dos modelos práticos de gestão implantados desde então, ainda que levassem em conta essas questões, continuaram a buscar o controle dos indivíduos, mesmo que de maneira mais sutil, pela via da persuasão para a integração aos objetivos organizacionais. O foco continuou sendo sempre o da garantia de altos padrões de produtividade.

No plano das relações com outros segmentos de públicos, as organizações evoluíram gradativamente dos modelos mecânicos da transmissão unilateral de informações para a implantação de processos de captura de informações e de anseios da audiência, mesmo que esses modelos continuassem assimétricos, como bem captaram Grunig e Grunig (1992).

Agora, depois de décadas de embates entre os humanistas e os reengenheiros das culturas e das estruturas empresariais (que durante as décadas de 1980 e 1990 praticamente dominaram os espaços empresariais), vivemos uma verdadeira retomada da questão humanística nos estudos organizacionais.

A inquietude diante dessa e de outras questões ganha força na academia. Autores como Sennet (2000, 2006), Rodríguez (2002, 2007) e Mariotti (2007) lançam olhares inovadores e instigantes sobre as questões do trabalho, da gestão e da humanização nos contextos organizacionais e sociais. Textos de Chanlat (2008), Henríquez (2006) e Zarifian (1996), desde a França, e de Maturana (1995, 1998, 2000, 2001), desde o Chile, contribuem para a emergência de um novo paradigma, capaz de induzir renovação aos estilos de gestão (que passam a ser mais voltados às pessoas, mais descentralizados e participativos e, pelo menos em tese, mais voltados a satisfazer necessidades humanas como a dignidade e a valorização das competências individuais).

Em suma, o que se anuncia é a superação do paradigma linear-cartesiano, causal, no qual os indivíduos estão submetidos à autoridade e aos desígnios da ordem de um todo que a tudo domina e controla, para um paradigma emergente, sistêmico e complexo, capaz de dar conta de novos desafios impostos pela diversidade, pela imprevisibilidade e pela complexidade.

Contexto

Nesse contexto, evidenciamos o fim da era em que as organizações, sobretudo as empresariais, viviam distantes da complexidade social, política, humanitária e ambiental e se projetavam somente sobre as dimensões econômicas de suas relações com as pessoas, com os grupos e com o mundo. “Na economia do conhecimento, todo trabalho... contém um componente de saber cuja importância é crescente” (GORZ, 2005, p.9).

Estamos diante de um momento profundo de reflexão e de questionamentos: o relacionamento entre o controle e a liberdade organizacional, a natureza do poder e da autoridade, o individualismo e o coletivismo, a informação e o conhecimento, sendo a responsabilidade, a estrutura social, a tecnologia e principalmente o comportamento dos seres humanos cada vez mais questionados pelas organizações, pelas sociedades e pelas pessoas. São “formas de saber que não são substituíveis, que não são formalizáveis: o saber da experiência, o discernimento, a capacidade de coordenação, de auto-organização e de comunicação” (GORZ, 2005, p. 9).

Estamos atônicos e perplexos diante da percepção da velocidade, da temporalidade e dos movimentos simultâneos. Como declara Gorz (2005, p.9), torna-se primordial nos estudos organizacionais o olhar para as “formas de um saber vivo adquirido do trânsito do cotidiano, que pertencem à cultura do cotidiano”.

Esse cenário sinaliza que, diante dos graves problemas da geopolítica internacional, da economia e do meio ambiente globais, o seu enfrentamento passa pelo resgate de uma comunicação mais efetiva, humana e integral, entre países, culturas, organizações e indivíduos.

Percebemos que a tendência à humanização das relações das empresas com a sociedade e com os indivíduos se apresenta ao mesmo tempo como inevitável e desejável. Notadamente, esse caminho impõe avanços posturais e atitudinais às organizações, como já é possível se ver em muitas novas práticas de comunicação interna, de relacionamento sócio-comunitário e de auto-responsabilização sócio-ambiental.

No campo acadêmico, teorias como a reflexiva incitam o olhar para as realidades criadas e recriadas e estimulam a análise dos próprios seres humanos para que as organizações sejam espaços de criatividade, de satisfação e de reconhecimento. Para tal, parece ser fundamental que se passe a enfatizar a construção de significados e sentidos em todas as suas relações.

Diante desse contexto em que áreas se aproximam, desafiam-se, buscam interdependências, formas de se fortalecer, assumem a interdisciplinaridade e a muldisciplinaridade, impõe-se a uma sociedade científica como a ABRAPCORP o estudo sistemático, diuturno, incansável, dessas questões.

Desafios para a Pesquisa

Diante dessas transformações, problemas de pesquisa emergem em profusão: Quais são nossos paradigmas? Quais as contradições? Como antever relações, conexões? Quais as novas perspectivas? Será a ênfase no estudo dos processos uma nova realidade de pesquisa? Que resultados apresentar? Que discursos evidenciar? Como nossas observações podem nos levar para além da obviedade dos “cases” de duvidoso sucesso? Como vivemos, construímos e reconstruímos os espaços de discurso e de diálogo nas organizações? Que humanização, afinal, perseguimos?

Essas são apenas algumas das perguntas que nos cobram, dos pesquisadores, análises críticas sobre as conseqüências da modernidade, da pós-modernidade e da necessidade de se abrir espaços para o homem, a cultura e a coletividade, no campo da comunicação e dos estudos organizacionais.

As questões ontológicas, que relacionam a natureza do fenômeno e sua existência, assim como as epistemológicas, ligadas diretamente ao conhecimento, precisam ser debatidas, elucidadas, para que se vislumbrem possibilidades de crescimento no campo acadêmico e no campo profissional das áreas da Comunicação Organizacional e das Relações Públicas.

Na área acadêmica, em especial, somos testemunhas e mentores de pesquisas sustentadoras de novos processos, contextos e análises que impulsionam o pensamento da teoria da comunicação e que certamente podem influir nessa construção do novo paradigma do pensamento complexo.

Entendemos que a dimensão funcionalista ainda prevalece nas teorias organizacionais e da comunicação, mas também percebemos que as organizações estão hoje direcionadas para a busca de novos conhecimentos teóricos que possam explorar o entendimento e a participação ativa dos seus públicos na construção e no desenvolvimento de maior sociabilidade, liberdade e diversidade.

As metateorias interpretativa, crítica e pós-moderna são questões presentes e emergentes em diferentes áreas de estudo, no sentido de possibilitarem às organizações ponderações sobre suas próprias atitudes. Somos responsáveis e ao mesmo tempo instrumento de nossas próprias criações. A cada nova prática, nosso entendimento sobre a organização se modifica. Neste processo, é fundamental entendermos que as experiências humanas é que possibilitam a existência de novas práticas. Não somos mais meros espectadores e observadores. Somos atores. Olhamos, refletimos e criamos os contextos dos quais fazemos parte. Não há, portanto, ciência neutra.

Assim, o III Congresso Científico da ABRAPCORP, ao abraçar o tema da Comunicação e da Humanização nos contextos organizacionais, nasce com o desafio de ampliar o conhecimento que permita explorar e desenvolver as organizações como espaços reais e possíveis. E nos provoca a discutir o próprio conceito contemporâneo de humanismo, numa perspectiva pós-iluminista, em que alguns elementos paradoxais precisam ser tratados e provocados, como, por exemplo, os que envolvem a autonomia do indivíduo versus a sujeição a regras e padrões comportamentais, a liberdade expressiva e criativa versus a imposição de modelos controladores e invasivos de gestão, a adoção de modelos participativos e dialógicos versus a overdose (des) informativa, a deificação da tecnologia versus a reificação dos trabalhadores e consumidores.

Referências:

CHANLAT, J. Le Manager a L’écoute des Sciences Sociales: pour un management compréhensif et réflexif. Gestão e Planejamento [Online] - Feb 19. 2008 1:14. Disponível: http://www.revistas.unifacs.br/index.php/rgb/article/view/227/232

ENRIQUEZ, Eugene. O homem do Século XXI: sujeito autônomo ou indivíduo descartável. São Paulo: RAE-eletrônica, v. 5, n. 1, Art. 10, jan./jun. 2006

GORZ, A. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Anablume, 2005.

GRUNIG, J.E. & GRUNIG, L.A. Models of public relations and communication, in J. E. Grunig (Ed.), Excellence in Public Relations and Communication Management, Hillsdale NJ, Lawrence Erlbaum Associates, Inc., 1992.

MARIOTTI, Humberto. Pensamento Complexo. Suas implicações à Liderança, à Aprendizagem e ao Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Atlas, 2007.

MATURANA, R. Humberto. A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano. São Paulo: Psy, 1995.

MATURANA, R. Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

MATURANA, Humberto; REZEPKA, Sima Nisis de. Formação humana e capacitação. Petrópolis: Vozes, 2000

MATURANA, R. Humberto. Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: UFMG, 2001.

MAYO, Elton. The human problems of an industrial civilization ch. 3. New York: MacMillan, 1933.

RODRÍGUEZ Mansilla, Darío - Gestión Organizacional. Santiago, Ed. Universidad Católica de Chile, 2002.

RODRÍGUEZ Mansilla, Darío, OPAZO B., María Pilar. Comunicaciones de la Organización. Santiago: Ediciones Universidad Católica de Chile, 2007.

SENNET, Richard. A Corrosão do Caráter. Rio de Janeiro: Record, 2000.

SENNET, Richard. A cultura do novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2006.

ZARIFIAN, Philippe. Travail et communication. Paris: Press Universitaire de France, 1996.







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